Por Ivan Trindade
Especialistas do Hospital de Base reforçam que prevenção, hábitos saudáveis e reconhecimento dos sinais de alerta são fundamentais para reduzir o risco de doenças neurológicas.
O
cérebro comanda pensamentos, emoções, movimentos, memórias e diversas
funções essenciais para a vida. No Dia Mundial do Cérebro, celebrado em
22 de julho, especialistas do Hospital de Base do Distrito Federal
(HBDF) reforçam que cuidar desse órgão vai muito além de estimular a
mente: começa com escolhas diárias capazes de prevenir doenças e
preservar a qualidade de vida.
Embora
o envelhecimento seja um processo natural, grande parte das doenças
neurológicas pode ter o risco reduzido com medidas simples adotadas ao
longo da vida. Para a neurologista Letícia Costa Rebello, proteger o
cérebro passa, antes de tudo, pelo controle dos fatores de risco
cardiovasculares.
"Pressão
alta, diabetes, colesterol elevado, tabagismo, obesidade e sedentarismo
são fatores que podem ser prevenidos e controlados. Cuidar da saúde do
coração também é cuidar da saúde do cérebro", destaca.
Entre
as doenças que mais preocupam os especialistas está o Acidente Vascular
Cerebral (AVC), uma das principais causas de morte e incapacidade no
país. Apesar da gravidade, a neurologista lembra que a maioria dos casos
pode ser evitada.
"Entre
80% e 90% dos AVCs podem ser prevenidos com o controle adequado dos
fatores de risco. Quanto mais cedo esses cuidados começam, maiores são
as chances de manter uma boa saúde cerebral ao longo da vida", explica.
Ao
contrário do que muitas pessoas imaginam, as doenças cerebrovasculares
não atingem apenas idosos. Embora o risco aumente com a idade, a
exposição prolongada a hábitos inadequados favorece o surgimento de
problemas muito antes do envelhecimento. Por isso, segundo Letícia, a
prevenção deve começar ainda na juventude.
"O
AVC pode acontecer em qualquer faixa etária. Quanto mais cedo
controlamos os fatores de risco, menor é o impacto deles sobre o
organismo ao longo dos anos", afirma.
Reconhecer
rapidamente os sinais de um AVC também pode fazer toda a diferença. A
médica orienta que sintomas como fraqueza em um lado do corpo,
dificuldade para falar e desvio da boca devem ser tratados como uma
emergência.
"A
palavra SAMU ajuda a lembrar dos principais sinais. Se a pessoa
apresentar qualquer um deles, é fundamental acionar imediatamente o 192.
Tempo é cérebro, e cada minuto faz diferença para reduzir sequelas e
aumentar as chances de recuperação", ressalta.
AVC não tem idade
A
experiência da jornalista Pollyana Cabral mostra que o AVC também pode
atingir pessoas jovens e reforça a importância de reconhecer rapidamente
os sinais da doença e buscar atendimento imediato.
“Eu
tinha 22 anos. Era um domingo quando tudo começou com uma dor de cabeça
fora do normal e a visão escurecendo aos poucos. Pensei que fosse
apenas uma enxaqueca. Dormi mal e, na manhã seguinte, acordei com o lado
esquerdo dormente, o olho avermelhado e a fala enrolada. Tentei seguir o
dia, fui para o trabalho e, ao tentar conversar, percebi que a língua
não obedecia. Procurei socorro imediatamente. O diagnóstico veio rápido:
Acidente Vascular Cerebral isquêmico, algo que jamais imaginaria viver
tão jovem. Perdi parte da memória e a fluência em idiomas que dominava.
Fiquei com paralisia no lado esquerdo do rosto e no braço por cerca de
seis meses. A fisioterapia e o apoio da família foram essenciais. Hoje,
com a memória reconstruída, entendo a importância de agir rápido",
conta.
Além
da prevenção das doenças vasculares, manter a saúde cerebral envolve um
conjunto de hábitos que influenciam diretamente o funcionamento do
organismo. A neurologista e pesquisadora Júlia Carolina Ribeiro explica
que o cérebro envelhece em conjunto com o restante do corpo.
"Os
cuidados mais eficazes não são soluções milagrosas para a memória, mas
hábitos que preservam a saúde como um todo, incluindo controle da
pressão arterial, alimentação equilibrada, atividade física, saúde
mental, audição, visão e uma vida social ativa", pontua.
O
descanso adequado também ocupa um papel essencial nesse processo.
Durante o sono, o cérebro realiza mecanismos importantes de limpeza e
consolidação da memória, enquanto o estresse prolongado e o excesso de
telas podem comprometer essas funções. Para a pesquisadora, estabelecer
limites no uso da tecnologia e preservar uma rotina saudável faz
diferença no longo prazo.
"Dormir
bem, reduzir o estresse crônico e evitar que as telas substituam o sono
ou o convívio social são medidas respaldadas pela ciência para proteger
a saúde cerebral", explica.
Quando
o assunto é manter a mente ativa, a especialista destaca que os maiores
benefícios não estão em soluções rápidas, mas na combinação de
diferentes estímulos ao longo da vida. Aprender um novo idioma, tocar um
instrumento musical, praticar dança, manter vínculos sociais e realizar
atividades físicas regularmente fortalecem a chamada reserva cognitiva,
que ajuda o cérebro a enfrentar melhor o processo de envelhecimento.
"O
conjunto de hábitos saudáveis tem um impacto muito maior do que
qualquer estratégia isolada para preservar a cognição", afirma Júlia.
Em
caso de sintomas que possam indicar um AVC, a orientação é acionar
imediatamente o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), pelo
telefone 192. Para prevenção e controle dos fatores de risco, a
população deve procurar uma Unidade Básica de Saúde (UBS), porta de
entrada do Sistema Único de Saúde (SUS).
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