Foto: Google imagens A presença de um parlamentar em uma ocorrência pol...

A presença de um parlamentar em uma ocorrência policial pode até ser legítima como gesto de fiscalização. O problema começa quando a fiscalização vira interferência. No episódio envolvendo o deputado distrital Fábio Félix (PSOL),durante uma prisão no Bloco Rebu, na segunda-feira (16), o que se viu foi a linha tênue entre o permitido, o conveniente e o clássico — ainda que não declarado — “você sabe quem sou?”.
O caso que colocou o deputado distrital Fábio Félix no centro de uma confusão com policiais militares durante um bloco de carnaval no Distrito Federal não é trivial. Também não é simples. Mas há um ponto que precisa ser frizado: mandato não é salvo-conduto.
Policiais da PMDF realizavam a prisão de suspeitos de tráfico de drogas em meio a uma multidão. O ambiente já era, por definição, sensível. Aglomeração, tensão e risco. Nesse contexto, qualquer elemento externo que altere a dinâmica da ação amplia o potencial de descontrole.
O que não é legítimo é interferir diretamente em uma ocorrência em andamento, tensionando agentes que estão no exercício da função. A autoridade parlamentar não se sobrepõe à autoridade operacional da polícia em serviço.
Quando um parlamentar entra em uma abordagem e tenta redirecionar seus rumos, ainda que sob o argumento da defesa de direitos, a mensagem transmitida é perigosa: a de que a aplicação da lei pode ser modulada pela influência política do momento.
Ao afirmar que não admite interferência externa em ocorrências, a Coronel Ana Paula Habka reafirmou um princípio básico: a autonomia técnica da ação policial. Em eventos de grande porte, como o carnaval, a previsibilidade operacional é fator de segurança coletiva. O policial que hesita diante de pressão externa expõe não apenas a si mesmo, mas toda a multidão ao redor.
Há um ponto que precisa ser ressaltado: os PMs estavam a serviço. Cumpriam dever legal. Em meio a um ambiente hostil, agiram para conter suspeitos e manter a ordem. Transformar esse cenário em palco político é, no mínimo, imprudente.
O debate não deveria girar apenas em torno do spray de pimenta , instrumento regulamentado e previsto em protocolos de dispersão. A discussão central é outra: até onde vai a prerrogativa parlamentar? E quando ela se converte em abuso de poder simbólico?
A democracia funciona com limites e responsabilidades compartilhadas. Fiscalizar é parte essencial do mandato, mas isso exige prudência. Quando a atuação pública ultrapassa o tom institucional e assume contornos pessoais, o debate perde qualidade e as instituições perdem força.

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